Ensemble Bonne Corde
- Concertos
- Da Quaresma à Páscoa
Ensemble Bonne Corde
Festival Internacional de Música Religiosa
21:30
Programa
Jerusalem, convertere
Música para a Semana Santa
Jan Dismas Zelenka (1679-1745)
da Trio Sonata VI em dó menor ZWV 181
Andante
Corselli, Francesco (1705-1778)
Lamentación Segunda del Jueves Santo (1747)
soprano, violoncelo solo e baixo contínuo
I. Lamed
II. Nun
III. Samech
Antonio Vivaldi (1678-1741)
da Sonata III para violoncelo e baixo contínuo em lá menor, RV 43
Largo | Allegro
Emanuele Gioacchino Cesare Rincon d’Astorga (1680-1757)
Sabbato Sancto | Lectio III
barítono, violoncelo solo e baixo contínuo
Salvatore Lanzetti (1710-1770)
Adagio da Sonata IX para violoncelo e baixo contínuo em lá menor, op.1
Valotti, Francesco Antonio (1697-1780)
Lezione seconda per il Giovedi Santo
soprano, violoncelo solo e baixo contínuo
I. Lamed
II. Mem
III. Nun
IV. Samech
V. Jerusalem convertere
Antonio Vandini (1690-1778
Largo da Sonata em lá menor, Van. 4
Joseph Hector Fiocco (1703-1741)
[Lamentatione terza del] Giovedi Santo
I. Aleph
II. Beth - Vetustam fecit
III. Beth - Aedificavit
IV. Jerusalem convertere
barítono, 2 violoncelos solo e baixo contínuo
Ficha Artística
Diana Vinagre - violoncelo barroco & direção artística
Raquel Mendes - soprano
Hugo Oliveira - barítono
Julien Hainsworth - violoncelo barroco
Marta Vicente - contrabaixo barroco
Josep Maria Marti Duran - arquialaúde
Jorge Escribano - órgão
Jerusalem, convertere
Notas ao programa
As Lamentações do Profeta Jeremias narram a invasão de Jerusalém e destruição do Templo de Salomão pelos babilónios em 586 a.C., sendo usadas na liturgia católica durante a Semana Santa para expressar a dor da Paixão e morte de Cristo. A adaptação musical destes textos foi de natureza polifónica até 1600, tendo durante o período barroco sido usada de forma generalizada a monodia com acompanhamento do baixo contínuo, existindo vários exemplos de obras tanto de tradição italiana (Cazzati, Colonna, Scarlatti, Durante) como francesa (Lambert, Charpentier, Couperin). Quando, nas primeiras décadas do século XVIII, o violoncelo conquista gradualmente na Europa um lugar enquanto instrumento solista, assistimos por parte de alguns compositores à inclusão de uma parte independente para violoncelo neste repertório, uma prática eminentemente italiana.
Se entre as figuras mais relevantes deste movimento estão compositores reconhecidos como A. Vivaldi, A. Bononcini, N. Porpora, A. Scarlatti ou L. Leo, o programa apresentado hoje em estreia e concebido especialmente para o FIMRG, reúne Lamentações e repertório a solo para violoncelo de autores pouco conhecidos do barroco tardio, testemunhando a amplitude e importância da diáspora de compositores e instrumentistas italianos pela Europa no século XVIII, não só na disseminação do violoncelo, mas como influência estilística maior na música do período.
Francesco Corselli (1705-1778) nasce em Pádua e começa a sua carreira em Parma antes de chegar a Madrid em 1733, pela mão de Isabel de Farnésio, rainha consorte de Filipe V. Ficará ao serviço da corte espanhola até ao final da sua vida, tendo ocupado vários cargos no Palácio Real, desde compositor de óperas a professor de vários membros da família real e Mestre de Capela. Conhecido pela grande exigência que tinha para com os músicos, o seu trabalho foi determinante na instituição, não só como compositor, mas também como director musical e gestor, tendo a sua influência perdurado durante anos após a sua morte. Também em Madrid esteve o compositor diletante Emanuele Gioacchino Cesare Rincón, Barão de Astorga (1680-1757). Oriundo de uma família nobre siciliana de ascendência espanhola, desenvolveu uma carreira cosmopolita entre várias cidades italianas, Viena e Lisboa, onde esteve provavelmente em dois períodos distintos e onde publicou Cantate da camera a voce sola, uma recolha de 12 cantatas, com texto bilingue em italiano e castelhano. A Terceira Lamentação para Sábado Santo incluída no programa é uma estreia moderna, conservando-se em manuscrito num arquivo de Veneza.
Francesco Antonio Valotti (1697-1780), compositor e teórico italiano, foi Mestre de Capela da Basílica de Santo António em Pádua durante 50 anos, desde 1730 até à sua morte. Neste período foi responsável por uma orquestra com prestígio europeu, da qual era primeiro violino um dos músicos mais famosos da época, Giuseppe Tartini. Apesar de ter deixado uma obra considerável, quase exclusivamente sacra, é através da sua obra teórica que Valotti é hoje conhecido, nomeadamente pela teorização de um dos sistemas de afinação mais utilizados hoje em dia no contexto das práticas históricas de interpretação, e identificado pelo seu nome. Além de Tartini, outro músico que se destacava na orquestra de Valotti e para quem terá escrito a Lamentação do programa de hoje, era o violoncelista Antonio Vandini (c.1690-1778) que, tal como Valotti, esteve ao serviço em Pádua durante quase 50 anos. Entre 1720 e 1721, foi professor no Ospedale della Pièta, em Veneza, do qual era responsável musical Antonio Vivaldi, que terá, durante este período, escrito algumas obras para Vandini. Teve como principal companheiro musical Giuseppe Tartini, com o qual formava um duo que se apresentava regularmente em público, tendo os 2 concertos para violoncelo de Tartini sido provavelmente escritos para o violoncelista. Os dois músicos interromperam o seu vínculo com a Basílica entre 1722 e 1726 para integrarem as celebrações da coroação do Imperador Carlos VI em Praga, tendo depois ficado ao serviço do Conde Ferdinand Francesco Kinsky, até regressarem a Pádua. Sobrevivem várias sonatas e 2 concertos para violoncelo de sua autoria.
Se alguns destes músicos tinham uma vida itinerante por vários centros europeus, regressando mais tarde a Itália, encontramos muitos exemplos de famílias que se radicam nos países de acolhimento, dando origem a gerações consecutivas de músicos. É o caso de Joseph-Hector Fiocco (1703-1741), segunda geração de uma família veneziana instalada em Bruxelas desde o final do século XVII. O seu pai e professor, Pietro Antonio Fiocco, foi nomeado em 1703 Mestre de Música da Capela Real, assim como responsável musical máximo da Catedral de Notre-Dâme du Sablon. Joseph-Hector trabalhou em Bruxelas e Antuérpia, onde escreveu o conjunto de Lamentações no qual se insere a obra hoje interpretada. Um traço característico não só da obra de Joseph-Hector como também da do seu pai, foi a assimilação musical de características estilísticas da música francesa, dando origem a um linguagem muito particular, na qual se fundem elementos italianos e franceses de forma orgânica e flúida.
Diana Vinagre

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- Organização
- Município de Guimarães
Parceiro
Sociedade Musical de GuimarãesParceiro Media
Rádio Renascença
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Classificação etária | M/6
Duração aprox. | 60 min
- Direitos reservados
- Texto
Imagem @Gonçalo Delgado
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